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“Quem não perceber em Portugal que Macau está a explodir, faz mal”

May 27, 2009

José Marquitos, vice-presidente da RTP, sobre o serviço público, a lusofonia e a cooperação com a China

Macau é uma terra onde as coisas acontecem e José Marquitos tem acompanhado esse crescimento. De passagem pela RAEM, o engenheiro electrotécnico que fez do mundo da comunicação a sua vida fala dos projectos que a RTP tem para Macau, da cooperação com a CCTV e da forma como pode ser melhorado o serviço público que chega à diáspora. Vice-presidente da RTP desde 2007, o ex-presidente do Público, que passou pela Lusomundo e pelo semanário Sol, defende ainda que é possível aproveitar melhor o activo que a língua portuguesa significa. Basta organização.

Isabel Castro

- Está cá para participar nas comemorações dos 25 anos de emissões da TDM, no mesmo ano em que se assinala o 10º aniversário de transferência de administração de Macau. Revelou esta semana que a RTP vai avançar com a produção de conteúdos sobre os 10 anos do estabelecimento da RAEM, ao trazer de novo o programa “Prós e Contras” ao território e com outros projectos. Que projectos são esses?

José Marquitos – É um conjunto de projectos. O director de programas, José Fragoso, poderia ser muito mais sintético e analítico do que eu, porque podia dar muita mais informação, mas trabalhamos juntos e sei que a ideia é, de alguma forma, fazermos um balanço do que aconteceu nestes 10 anos: como está a presença portuguesa, o que é que os portugueses fizeram entretanto, que projectos portugueses estão instalados em Macau ou através de Macau, e também perceber qual o desenvolvimento durante estes 10 anos, em que se está a fazer toda esta transição. A TDM tem estado a fazer um trabalho notável de divulgação de conteúdos portugueses e procuramos ser o mais possível úteis pondo à disposição os conteúdos que julguem necessários. Penso que esse balanço dos 10 anos é uma obrigação do serviço público português. Outras televisões e outros meios também o farão – e farão bem, certamente -, mas cabe à RTP um papel fundamental nisso.
- Seguindo essa lógica de serviço público, entende que a RTP tem prestado a devida atenção a Macau, em particular, e à Ásia como um todo? Vemos com muita frequência África e o Brasil na RTP, mas Macau está poucas vezes presente.
J.M. – Seria incorrecto dizer que fizemos mal, ou que fizemos menos bem. Mas também tenho consciência de que, de facto, não somos perfeitos e que temos ainda muitas dificuldades, particularmente ao nível da própria RTP Internacional, em que estamos a procurar cada vez mais diferenciar os nossos conteúdos de acordo com a Ásia, África e Europa. Isso também nos obriga a um grande investimento técnico que está a ser feito para podermos ter uma RTP Internacional mais vocacionada para cada um dos continentes. Quanto à pergunta, certamente que se fez tudo o que se pôde, mas acho que a RTP pode fazer mais e melhor. É essa a nossa obrigação de serviço público.
- Quando se vê, por exemplo, o noticiário da RTP em Macau, a ideia com que se fica é que o serviço público de televisão, à semelhança dos canais privados, está muito virado para aquilo que se passa dentro do rectângulo. É um reflexo daquilo que é o país neste momento? Compete ao serviço público saber romper com essa tendência e mostrar que há algo mais?
J.M. – Estou completamente de acordo. Estamos a fazer na RTP um grande esforço para termos uma visão de conteúdos de consumo interno – para o país, que é fundamental acompanharmos com qualidade, com isenção, pluralismo e independência – e, simultaneamente, estarmos muito atentos à diáspora portuguesa. Penso que já temos uma presença contínua e assinalável no que diz respeito a África. Temos de crescer para outros domínios onde há bolsas de lusofonia que devem ser alimentadas, tratadas e, ao mesmo tempo, levar para dentro o que elas estão a fazer e a desenvolver, para não ficarmos numa cultura que se fecha em si própria. O serviço público tem uma grande importância no que se refere ao acompanhamento, quer em termos de informação, quer na programação, do que é o nosso país real, as dificuldades que vai tendo e ultrapassando. Mas, simultaneamente, deve ter cada vez mais preocupação com os portugueses, estejam eles onde estiverem. E, para isso, é preciso que essas bolsas sejam completamente identificadas – e estão -, e depois é preciso fazer trabalho específico para esses falantes de português, estejam eles onde estiverem.
- Neste momento, com a concorrência que existe em Portugal em termos televisivos, é fácil manter uma lógica de serviço público, um trabalho que vá de encontro ao que significa este conceito?
J.M. – Diria que não é fácil, mas temos obrigação de o fazer. A nossa empresa tem 17 canais a funcionar, oito de televisão e nove de rádio. Temos canais regionais, para a Madeira e para os Açores, temos canais internacionais que cobrem, de facto, todos os cantos do mundo, através da rádio e da televisão. Na rádio ainda cruzamos diferentes tecnologias: chegamos a todo o lado através da onde curta, onda média, FM, por satélite. Temos de nos estruturar, cada vez mais, numa visão clara da nossa organização onde concorremos directamente com os privados, com as grandes obrigações de serviço público. Depois, temos de ter uma área que é ainda mais serviço público ‘puro e duro’, que é onde fazemos chegar e onde recolhemos o que se está a passar do nosso país para fora, e de fora para o nosso país, em termos de lusofonia. Temos de nos lembrar dos locais onde estão grupos de portugueses, temos de saber o que precisam, como é que conseguem manter-se ligados a nós e de que tipo de conteúdos necessitam. A RTP Internacional é um projecto duro e difícil, na medida em que há vários segmentos. Além das bolsas de falantes de português espalhadas pelo mundo, há também diferentes segmentos que sentem necessidades diferentes ao nível dos conteúdos. Teremos de reforçar muito a informação, o que será uma tarefa possível, porque temos hoje um canal que foi reformulado, a RTPN, que tem noticiários de hora a hora. É evidente que para pegarmos nalguns desses noticiários e os colocarmos nas várias ‘RTPs Internacionais’ que temos, terão de ser devidamente tratados e editados. Temos uma quantidade de conteúdos e de informação já gerada dentro de casa que podemos, com melhor tratamento de edição, localizá-la melhor para as diferentes partes do mundo.
- A RTP tem alguma forma de avaliar, neste momento, qual a perspectiva que as comunidades da diáspora têm em relação à RTP Internacional?
J.M. – Isso é muito feito na base do diálogo franco que vamos captando. Não temos medida de audiências propriamente dita, que seria também, de alguma forma, uma medida fria das coisas, porque não é só por audiências que nos podemos guiar. É pelas audiências, a qualificação das audiências, a qualidade do produto que fazemos. Portanto, esse trabalho faz-se fundamentalmente pelo retorno que temos, e temos cada vez mais de estar em contacto com essas bolsas de portugueses espalhadas pelo mundo para sabermos exactamente como somos vistos, e se estamos a fazer aquilo que mais lhes interessa ou não. Com África temos esse feedback mais rápido, por uma razão simples: temos projectos para África em que estamos não só na área da RTP África, mas também, dentro do que nos é possível, em parceria activa com os países de língua portuguesa. Temos correspondentes que também têm obrigação de terem uma noção da forma como está a ser apreciado o trabalho que fazemos. Mas isto é cultural, tem de ser aprimorado, têm de se criar cada vez mais métodos de avaliação, de sintonia daquilo que fazemos e da forma como é visto.
- Ainda em relação à RTP Internacional, há quem tenha a noção de que os conteúdos que nos são dados são, de algum modo, díspares em relação ao que é a nova emigração. Entende que há um certo desfasamento entre produto disponibilizado e receptores?
J.M. – Quando falava na necessidade de estarmos atentos aos diferentes segmentos, é porque considero que também é emigrante aquele que tem de se deslocar para fora por 15 ou 20 dias, mas também se aplica aos que estão dois ou três meses, e aos que estão fora há muitos anos, com culturas e até níveis de educação diferentes. Temos de servir toda esta gente, o que não é fácil. Julgo que teremos de fazer mais trabalho para as pessoas que requerem mais informação. Sei que, aqui em Macau, se passa algo curioso que me foi relatado pelos responsáveis da TDM: há determinados programas da área da informação que passam aqui a horas que não estão minimamente ajustadas com a vida das pessoas. Por isso, a TDM acaba por repeti-los num horário diferente, de forma a poderem ser vistos. É deste tipo de coordenação que falo quando digo que teremos de ser cada vez melhores. Esse trabalho prende-se também com condições técnicas. Se só temos uma saída para a RTP Internacional, se tem de ser difundida àquela hora para todo o mundo, é evidente que vamos chegar a sítios onde estamos convenientemente colocados, e noutros locais estamos completamente desfasados. Tive uma experiência muito gratificante há uns meses, quando visitei Newark, e tive oportunidade de falar com vários portugueses a viverem lá. Disseram-me para fazermos as alterações que quiséssemos, mas pediram para não tocarmos no noticiário das 19h. Fiquei a pensar que noticiário seria – é o das 24h da RTPN. É um noticiário extremamente apreciado porque se tem a noção de notícia fresca, do que se passou no dia, e vêem-se as páginas dos jornais do dia seguinte. É esse sentido de actualidade que pode fazer a diferença. Mas não é só a informação, são também os programas de informação, os programas de ficção em português. E em tudo isto tem de haver um desenvolvimento e uma partilha, com um grande esforço de co-produção, que é aquilo que procuramos, por exemplo, com o projecto sobre Macau. Não queremos vir cá e fazer um produto. Queremos chegar cá e ter apoio local para um conteúdo que reflicta a cultura do sítio onde o estamos a produzir, e que cumpra os objectivos de fazer, de facto, o balanço dos 10 anos de RAEM.
- A TDM já demonstrou disponibilidade para ajudar. Sentiu que houve uma relação de cooperação que se manteve ao longo destes anos?
J.M. – Completamente. A TDM está de parabéns, não só pelos seus 25 anos, mas porque foi capaz de trazer aqui representantes de Timor-Leste, da Guiné-Bissau, de Cabo Verde, de Angola, e nós, de Portugal. Infelizmente, Moçambique e São Tomé não estiveram presentes. A importância deste tipo de fóruns, mais do que aquilo que se diz num discurso, está no que se conversa num café, nas ideias que se trocam, na compreensão das necessidades de cada um e também na possibilidade de nos ajudarmos todos com aquilo que cada um tem, para fazermos isto um bocadinho melhor.
- Principalmente a partir de 2003, Macau tem vindo a dar grande destaque à lusofonia, com a organização de eventos de diferentes índoles em que os países de língua oficial portuguesa são chamados a participar. Sente que, em Portugal, há a noção de que a nossa pátria é a nossa língua, mais do que o nosso espaço territorial?
J.M. – Nestes três dias que aqui estive, e por muito que se julgue que se sabe ou se faz uma ideia, a verdade é que aqui ganhamos consciência clara de algo que é extraordinariamente importante: Macau é, de facto, estrategicamente muito importante para Portugal, que deve entender isso aos diferentes níveis. Nós, na televisão de serviço público, também o devemos fazer com humildade. Há uma oportunidade com muito potencial, uma porta que está extraordinariamente bem cuidada. Os portugueses que ainda cá residem mantêm este espírito português que é profundamente respeitado pelos chineses, como tive oportunidade de ver. Isso é um privilégio para quem estiver a pensar que há um novo grande mundo chamado China, que está a explodir permanentemente, e que Macau é uma grande oportunidade para percebermos a cultura, aquilo a que chamo o caminho das pedras, para chegarmos bem ao sítio que queremos.
- Ainda em relação à lusofonia. Portugal tem noção da importância da lusofonia enquanto conceito?
J.M. – Não tenho a menor dúvida de que todos temos noção do mundo lusófono, de que há 200 milhões de pessoas a falar português, que seremos eventualmente a quinta língua mais falada. É um activo fantástico. Não terei já tanta certeza de que estaremos a cuidar deste activo da melhor maneira possível. Certamente que estaremos todos a fazer o melhor que podemos, mas podemos, de uma forma organizada, fazer muito mais. Na RTP, dedicamo-nos muito à RTP Internacional, que é o maior veículo para unir este conjunto de 200 milhões. Mas, como dizia há pouco, ainda há muito para fazer.
- Mas a própria RTP, internamente, trabalha também a esse nível? Lembro-me que os Jogos da Lusofonia, que se realizaram em 2006 em Macau e que em Julho próximo são organizados por Lisboa, foram transmitidos pelo Canal 2 em horário pouco nobre. Para quem estava em Portugal na altura, passou um pouco ao lado.
J.M. – Tenho de defender a minha dama e uma das minhas damas é, de facto, o Canal 2. O facto de ir para o Canal 2 pode fazer com que se pense que tem muito menos audiência. É verdade que, globalmente, o Canal 2 tem uma audiência muito qualificada mas que, em números, serão uns seis por cento, enquanto que o Canal 1 terá 24 ou 25 por cento. Na RTP, queremos fazer passar a mensagem de que não podemos ser só vistos por aquilo que é o Canal 1. Temos de ser vistos, em termos de relevância, pelo somatório dos dois canais. Não é por acaso que o Canal 2 tem seis por cento e o Canal 1 tem 25 ou 26. O tipo de conteúdos é destinado a determinados segmentos que os prefere ver naquele canal – não são só os conteúdos específicos, mas a sequência e a coerência que fazem o Canal 2. Temos lá muitos mais conteúdos de ordem cultural. Claro que os Jogos da Lusofonia também têm uma componente desportiva, além da cultural. Mas um bom exemplo foi a abertura dos Jogos Olímpicos (JO) de 2008, que foi feita no Canal 2. Foi a prova de que temos de fazer um equilíbrio. Os JO são de alta competição, mas são também um fenómeno cultural que une todo o mundo. Achámos que faria todo o sentido transmitir as cerimónias de abertura e de encerramento no Canal 2. Foi um sucesso.
- A RTP tem mantido conversações com a CCTV em relação ao canal em língua portuguesa da televisão estatal chinesa. Que tipo de cooperação vai ser esta? Formação de jornalistas e disponibilização de conteúdos?
J.M. – Tivemos uma delegação da CCTV em Lisboa, na RTP, há cerca de um mês. Infelizmente não pude estar presente na reunião mas, pelo que disse o presidente e os meus colegas que tiveram oportunidade de estar em contacto com as pessoas que nos visitaram, a nossa maior participação será na área da formação e na eventual cedência de conteúdos para aquilo que for julgado útil. Falou-se muito na formação de pessoas. Julgo que a CCTV tem uma lógica correcta ao perceber que, mais do que uma língua, é preciso perceber-se a cultura que está por trás da língua, a forma como se comunica em português.
- Como é que a RTP olha para esta aproximação da televisão estatal chinesa à estação portuguesa de serviço público?
J.M. – Para nós é uma verdadeira honra. Mais do que um grande país, estamos a falar de um imenso continente que estabelece relações connosco e que acha que podemos ser úteis. Simultaneamente, é uma oportunidade também para percebermos como funciona esse novo mundo e, eventualmente um dia, podermos beneficiar dessa troca de conteúdos e da oportunidade dada por esta porta que é Macau. A China tem uma expansão fantástica e temos de olhar também para a Índia, para a América do Sul – ainda instável mas com uma dimensão e riqueza que fazem com que tenhamos de estar atentos às oportunidades. Há algo que é muito importante: estarmos com a suficiente antecedência para suportar e apoiar todo o fluxo de negócios e de intercâmbio cultural que os portugueses queiram fazer com esses países. Acho que é uma das componentes do verdadeiro serviço público da RTP: dar esse apoio como uma plataforma que está estabelecida e que ajuda a que outras coisas aconteçam.
- Esteve cá nos anos 90, voltou há quatro anos e regressou agora. O que vai dizer quando chegar a Lisboa?
J.M. – Vou dizer que foi muito bom estar cá porque tive a oportunidade de perceber mais um bocadinho de como é que esta cultura funciona, a variação rápida do formal e do informal que caracteriza toda esta sociedade – aparentemente muito formal, mas que, no informal, é muito pragmática, resolve problemas, faz projectos e data-os no tempo. Vou dizer que Macau corresponde à surpresa que esperava ter: há quatro anos, quando estive aqui, vi que isto estava num reboliço enorme. Vou dizer que Macau está pujante, com um crescimento muito grande. Vou dizer que Macau está a explodir e que quem não perceber isto em Portugal está a fazer muito mal.

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