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Os promotores macaenses da teoria darwinista

Maio 27, 2009

Isabel Morais investiga biografias ocultas de personalidades de Macau

Foram dos primeiros a discutir o darwinismo em português, viviam o ideário republicano e tinham relações próximas com revolucionários como Sun Yat-sen e José Rizal, a quem ajudaram na actividade panfletária de luta pela independência filipina. Viviam sob as insígnias da maçonaria e desempenhavam cargos políticos relevantes em Hong Kong.
Nomes como Lourenço Marques e Polycarpo da Costa integraram uma elite macaense que tem facetas por revelar. O trabalho de pesquisa mais recente da investigadora e professora do instituto Inter-Universitário, Isabel Morais, tem sido o de pôr a descoberto o retrato completo destas personalidades de Macau.
O projecto ainda está em curso, e encontrou nas celebrações dos 150 anos da publicação de “A Origem das Espécies”, de Darwin, a oportunidade para investigar o papel destes macaenses na promoção da teoria darwinista, com uma década de publicações múltiplas sobre o tema e que não tem sido alvo da merecida atenção.
Ateístas, republicanos e maçons, as personalidades investigadas foram macaenses a residir em Hong Kong, onde detinham algumas das maiores casas tipográficas. Daí, fizeram sair um grande número de obras e manifestos sobre Darwin, que fizeram distribuir em Macau, Hong Kong, e nos vários portos controlados pelos portugueses.
O objectivo era, segundo a investigadora, promover a educação e ciência junto da população, sendo estes macaenses movidos também pelos princípios filantrópicos que orientam as lojas maçónicas.
Nomes como Lourenço Marques, Polycarpo da Costa ou Francisco Hermenegildo Fernandes tiveram também relações fortes com personalidades como Sun Yat-sen, o mentor da revolução republicana chinesa, ou José Rizal, combatente pela independência filipina em relação ao poder colonial espanhol.
“Iniciei uma investigação sobre o ensino do português em Hong Kong. Todos estes nomes começaram aparecer e comecei a interessar-me muito pelas biografias deles. Depois, quando comecei a descobrir os contactos de alguns membros desta comunidade em Hong Kong com Sun Yat-sen e José Rizal, o interesse foi aumentando”, revela Morais, que acabou por descobrir que os elementos da comunidade macaense em Hong Kong ajudaram Rizal a publicar as suas obras, e inclusivamente o ajudaram a encontrar trabalho como médico em Hong Kong.
Daí, resultou um trabalho sobre os contactos de Rizal com as elites macaenses em Hong Kong. A investigadora viu-se nessa altura munida de vários elementos que lhe permitiram confirmar que alguns desses elementos da comunidade estavam então ligados à maçonaria.

As primeiras obras sobre o Evolucionismo em Português

“A partir dai, debrucei-me sobre este interesse todo que havia há volta do darwinismo, e ainda mais interessada fiquei quando descubro que estes macaenses, por um período de dez anos, tinham estado a escrever nesta parte do mundo. Foram os primeiros. As obras que escreveram não foram incluídas nas listagens dos autores que escreveram sobre a Teoria da Evolução em língua portuguesa. Ninguém refere estas obras destes autores”, explica Isabel Morais, que assim encontrou novos elementos de interesse para o trabalho de investigação actual, e que ontem apresentou parcialmente numa conferência da Universidade de Macau.
Décadas depois destas publicações “o darwinismo viria a ter uma grande influência sobre os intelectuais chineses”, outro motivo de interesse adicional na investigação.
“Sabemos que o Sun Yat-sen esteve muito ligado a um macaense chamado Francisco Hermenegildo Fernandes, que trabalhou no tribunal de Hong Kong e conheceu Rizal, estabelecendo com ele um vínculo muito forte. Hermenegildo Fernandes era também o proprietário do ‘Eco Macaense’, jornal em que colaborou Sun Yat-sen, enquanto viveu em Macau. Mantiveram correspondência durante muitos anos” revela também a investigadora que concluiu assim que estes macaenses radicados em Hong Kong “foram amigos e auxiliaram aqueles que foram, provavelmente, dois dos maiores revolucionários da época”.
A investigação que desenvolve pretende apurar e comprovar mais factos pouco conhecidos destes macaenses. “Eram homens republicanos, mas eram homens que tinham grandes ligações também à maçonaria. Também me interessa esta rede muito intrincada de solidariedade que tem influência política. Muitos destes macaenses em Hong Kong vão desempenhar um papel muito importante na política e em vários sectores da sociedade”, explica, salientando também que Macau era na época uma sociedade muito conservadora e dominada pela Igreja.
Isabel Morais lamenta no entanto os obstáculos que tem encontrado na recolha de fontes para o seu trabalho junto dos arquivos e bibliotecas locais. “Eu, investigadora local, tenho grandes dificuldades em fazer investigação em Macau. Cada vez que vou aos arquivos e bibliotecas locais – como a Biblioteca do Senado, Arquivo Histórico, ou mesmo Biblioteca de Macau – encontro sempre grandes dificuldades”, desabafa. “É mais fácil ter acesso aos arquivos da maçonaria em Hong Kong, que é uma sociedade fechada, do que em Macau”.

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