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Mesquita e Templo de Tin Hau em risco

May 27, 2009

Antropólogo defende salvaguarda de locais de culto de Macau

Peter Zabielskis chama a atenção para a ameaça que pende sobre dois locais de culto do território. A Mesquita de Macau poderá ser alienada por proprietários ausentes e obscuros aos interesses imobiliários. Já o Templo de Tin Hau, na Taipa, é terreno disputado por organismos públicos e um proprietário que se faz valer apenas de escrituras em papel-de-seda. O antropólogo da Universidade de Macau, especialista em cultos religiosos, defende que o Governo deve encarar o património que está para além das Ruínas de São Paulo e garantir a salvaguarda da memória contida nos pequenos redutos sagrados da RAEM.

A Mesquita de Macau continua a receber cerca de dois mil fiéis ainda hoje, ao passo que a adoração da divindade Mou Tai (o deus da guerra, no culto tradicional chinês) perdeu desde há muito as visitas frequentes de tríades e malfeitores que executavam rituais de penitência no templo de Tin Hau na Taipa. Hoje recebe dois ou três devotos habituais.
São espaços de culto da RAEM que o antropólogo Peter Zabielskis considera estarem sob a ameaça do desenvolvimento veloz do território. O académico, que há três anos investiga e lecciona na Universidade de Macau, desenvolve actualmente um trabalho de recolha das memórias da história e das práticas religiosas nestes locais. Um trabalho que entende ser de salvaguarda ética e etnográfica para que o futuro possa recordar templo e mesquita, quando estes cederem lugar a outras realidades.
“Este é um trabalho de recuperação etnográfica em que se tenta recolher o máximo possível de informação cultural sobre uma prática antes que se perca ou antes que a sua natureza se altere por via das pressões do mundo moderno. São muitas vezes pressões de índole comercial ou de desenvolvimento urbano”, explica o antropólogo que tem como especialidade o estudo das pequenas comunidades religiosas no quadro de grandes núcleos urbanos.
No decurso da investigação, que ontem apresentou na Universidade de Macau no âmbito da conferência promovida pelo departamento de História (página 12), Zabielkis contactou os devotos da mesquita e o actual proprietário do templo chinês, dos quais tem recolhido informações.
A mesquita de Macau, junto ao Jardim da Montanha Russa, é hoje frequentada por cerca de dois milhares de pessoas, na sua maioria mulheres indonésias, que asseguram a gestão do espaço.
O terreno é privado e administrado por uma Associação de Hong Kong, que Peter Zabielskis entende ser uma entidade um pouco obscura dados os relatos que lhe foram feitos pela comunidade muçulmana que frequenta o lugar. Esta – diz – não mantém contactos com os proprietários e queixa-se ainda de falta de transparência relativamente às receitas geradas pelo local de culto.
Os fiéis dizem também que a associação proprietária quererá rentabilizar o espaço, vendendo-o para a construção de apartamentos de luxo. Já o Imã da mesquita gostaria de fazer planos para a construção de um grande lugar de oração moderno, financiado por eventuais milionários árabes a quem o projecto seria apresentado.
São todos relatos que carecem ainda de muita investigação, admite Peter Zabielskis, mas que são por si já alarmantes. “São terrenos de grande valor imobiliário. No caso da Mesquita, trata-se de um terreno localizado num espaço bonito da cidade e bastante cobiçado por várias entidades. Se queremos que se mantenha um local de culto, será necessário empreender esforços extraordinários. Porque a pressão do mundo de hoje pede-nos que lhe demos outro destino”, alerta.
Já o Templo de Tin Hau, na Taipa, terá sido construído em 1684, de acordo com o seu actual proprietário que alega que o seu avô terá adquirido o templo pela quantia de oito mil patacas em 1949. Para o provar, tem apenas uma escritura de papel-de-seda, que o Governo não reconhece.

O templo do deus das tríades

O lugar presta culto ao Deus da Guerra, o favorito das seitas e grupos criminosos que, desde 1999, não terão mais encontrado grandes motivos para se penitenciarem e venerarem Mou Tai, no relato do proprietário ouvido pelo antropólogo. Ironicamente, outro dos habituais frequentadores do templo seria o Secretário para a Segurança, Cheang Kwok Wa, de acordo com o mesmo relato.
Hoje, segundo a investigação de Zabielskis, apenas dois ou três devotos prestarão culto no local, oferecendo donativos que irão das dez às vinte patacas para que o proprietário faça frente a despesas na ordem das três mil patacas mensais.
“Penso que o proprietário reconhece que o templo integra o património cultural e quer continuar a estar ligado a ele, é o seu modo de vida. Mas precisa de ajuda e reconhecimento pelo trabalho que fez, assim como ajuda física para a manutenção do edifício seja qual for o resultado da disputa sobre o terreno”, refere o antropólogo, a quem foi dito que tanto o Instituto para o Assuntos Cívicos e Municipais como o Instituto Cultural gostariam de ocupar o espaço.
“O templo de Tin Hau beneficiou em muito do turismo religioso. Sempre recebeu visitantes do continente chinês e de Hong Kong, tanto quanto se sabe. O futuro do templo pode ser assegurado nessa dinâmica de turismo religioso, ainda que numa escala muito modesta”, entende porém Peter Zabielskis.
O antropólogo chama a atenção para estes dois pequenos espaços de culto de Macau, porventura insignificantes ao primeiro olhar de quem gere e tem responsabilidades de salvaguardar o património da RAEM. “O Governo precisa de reconhecer que as pequenas coisas também merecem uma atenção cuidada e não apenas os grande monumentos que integram a lista de património mundial da humanidade”, afirma.

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