De Obama aos conselhos para os assessores
Imprensa em língua chinesa analisa episódio da falsa jornalista
Têm vindo de Hong Kong a maioria das notícias que dão conta dos descontentamentos locais em relação à candidatura de Chui Sai On. Um dos matutinos da antiga colónia britânica explicou no passado fim-de-semana que a tentativa de publicação de um anúncio no Apple Daily se prendia com o facto de os matutinos de Macau se recusarem à divulgação de tais conteúdos, mesmo num espaço dedicado à publicidade.
Ora, nas edições de ontem dos jornais em língua chinesa de Macau, muito se falou deste movimento (ou movimentos?) de desagrado em relação a um candidato oriundo das grandes famílias. E se a mulher disfarçada de jornalista queria chamar a atenção da imprensa, o seu objectivo foi duplamente conseguido: os dois principais matutinos não só dão conta do sucedido, como têm artigos de opinião sobre o episódio.
Lok Tin, articulista do Va Kio, aproveitou a sua coluna diária para dar uma verdadeira lição de boa educação à falsa repórter da Asian Week. O texto começa com a ideia de que não é toda a gente que tem direito a 15 minutos de fama.
Quem deseja passar por esta experiência, prossegue, pode tentar obter a tal fama cronometrada por “meios adequados e justos ou ter uma atitude tonta e ignorar as consequências”. Lok Tin elege este segundo método para classificar o que aconteceu na segunda-feira na conferência de imprensa de Chui Sai On.
O articulista recorda o episódio (ver texto nestas páginas) para considerar que, para pessoas como a mulher mais famosa da semana, “a democracia e a liberdade não passam de jogos”. O que se passou, sentencia, “foi muito pobre”. Principalmente porque “estas pessoas não revelam as suas verdadeiras identidades”.
Lok Tin entende que a protagonista do seu texto deve ser uma pessoa que “raramente lê jornais”. E diz isto para tentar desmontar o principal argumento da contestatária aos políticos oriundos das grandes famílias, que acusou o clã Chui de beneficiar da atribuição de terrenos a preços indevidos. O autor vai buscar um exemplo ao outro lado do mundo.
“Obama bateu o recorde na recolha de apoios financeiros para a sua campanha eleitoral. Todos os donativos vieram dos cidadãos? Se aceitou elevados montantes de grandes empresas, então, de acordo com a opinião desta mulher, Obama deveria sair da cena política.”
Há mais um exemplo (desta feita mais próximo em termos geográficos) no texto publicado pelo Va Kio. “Chen Shui-bien, o antigo Presidente de Taiwan, não tinha relações próximas com os círculos empresariais. Quais foram os resultados deste Presidente?”, lança.
A teoria da interactividade
O Ou Mun adopta outro estilo, num texto assinado por Ha Wan, que faz igualmente referência ao caso da mulher que se fez passar por jornalista. Porém, para o autor, “a motivação e a responsabilização do incidente não são o que mais importa”. Relevante é “a interactividade entre candidatos, os membros do Comité Eleitoral e a população”.
Refere Ha Wan que desde que Chui Sai On anunciou a intenção de se candidatar a Chefe do Executivo que a “discussão na sociedade tem sido muito acesa”. Contudo, aconselha, a relação entre os críticos e os criticados deve ser construída com racionalidade.
O articulista faz uma lista dos defeitos que têm sido apontados ao ex-secretário para os Assuntos Sociais e Cultura, procurando fazer um equilíbrio com as virtudes de Chui, para vincar que a opinião pública deve revelar uma atitude construtiva.
“Nestas eleições para o Chefe do Executivo, é inevitável que surja barulho, especialmente porque se seguem as eleições para a Assembleia Legislativa”, analisa. “Provavelmente, serão ditas outras palavras sem fundamento.” Ha Wan espera que os diferentes círculos sociais tenham isto em mente e apostem na “interactividade”. “Ao passar este teste”, conclui, “a sociedade de Macau do futuro será infinitamente beneficiada”.
Outras estratégias
O Shimin também reserva espaço à opinião sobre o que se passou na sala de imprensa, mas prefere direccionar o seu discurso para a equipa que está a trabalhar com Chui Sai On nos preparativos da candidatura a Chefe.
“Independentemente de se tratar ou não de um pequeno episódio”, lê-se no texto, “é conveniente que Chui Sai On e a sua equipa reponderem a estratégia para o futuro, de modo a que consigam alcançar o objectivo final”.
Embora o colégio eleitoral seja composto por 300 membros – e são estes que têm de apoiar o candidato para que seja eleito – o contexto social também é importante, sublinha o autor.
“Da situação que Edmund Ho encontrou àquela em que está hoje Chui Sai On verificaram-se enormes mudanças. Hoje em dia a sociedade de Macau tem grandes expectativas em relação ao seu líder futuro.” Já não basta – aponta – “o contexto familiar”.
Assim sendo, e porque “este segmento deve ser tido em consideração na estratégia eleitoral”, o Shimin aconselha algumas mudanças em termos de campanha. “Por exemplo, os cinco membros do gabinete de candidatura são pessoas com pouca experiência nos contactos com a imprensa e nas capacidades de análise política”, refere. O que aconteceu na segunda-feira, entende a publicação, resulta do facto de não ter havido preparação prévia para o confronto com “as perguntas difíceis” levantadas pela imprensa.
Uma última dica no artigo do Shimin: “A sociedade já demonstrou que tem opiniões fortes. Os assessores de Chui Sai On devem ter isto em mente para promoverem a imagem de profissionalismo do candidato”.
Isabel Castro
