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A ópera de todas as óperas

May 27, 2009

Para quem nunca assistiu a um espectáculo de ópera chinesa, esta é a oportunidade a não perder. Para quem já assistiu, também. A Companhia de Ópera Qingqiang “Pequena Flor de Amexoeira” actua esta noite, às 20h, no Grande Auditório do Centro Cultural. É a primeira vez que o grupo que representa a tradição popular mais antiga e mais influente na história do teatro de ópera chinesa actua em Macau. Reconhecida como património intangível nacional, e candidata ao reconhecimento mundial, a ópera Qingqiang é fiel depositária de uma tradição milenar que remonta à dinastia Qin.

Nascida nas margens do Rio Amarelo, entre as províncias de Shaanxi e Gansu, a tradição popular hoje conhecida como Qingqiang distingue-se pelo tom estridente dos seus actores – o mais alto de todo o teatro de ópera chinês – e pelos temas recorrentes da guerra e de luta, que criam cenários de heroísmo e bravura destinados a galvanizar a população. Dos mais de trezentos tipos de ópera chinesa, esta é também aquela onde o estilo de representação é mais exagerado.
O tema apresentado em Macau, e produzido pelo Instituto de Investigação de Ópera Tradicional Chinesa de Shaanxi, foi estabelecido nos anos 50 do século passado. “Mulheres General da Família Yang” recria a lenda, passada na dinastia Song, sobre os feitos patrióticos das mulheres da família do General Yang Zongbao, do Reino de Xia, cujos domínios são ocupados.
Chen Yan, director da Associação de Teatro da China e do instituto de Shaanxi, adaptou o argumento.
“A história da família Yang tem uma grande tradição e já teve vários arranjos para ópera. Este arranjo particular, com este títulos, data os anos 50, que é interpretado por muitas companhias de todo o país. Tem um grande número de elementos tradicionais, o que agrada ao público que é apreciador da ópera chinesa, com todas as suas características técnicas, histórias, artísticas e culturais”, revela o dramaturgo.
“É uma história de teor patriótico, bastante ao gosto popular chinês”, explica também.
Sobre o enredo da lenda tradicional chinesa, o director conta que esta se passa numa época da História da China em que a dinastia Song pretende conquistar o território Xia.
“Dos Xia – explica -, houve muitos homens que pereceram na guerra, só restando as mulheres da família, que entenderam que tinham de proteger a sua terra e empreenderam então essa defesa por elas próprias, organizando-se sob a coordenação de uma senhora com cem anos, que foi realmente uma heroína ao conseguir recuperar o território.”
Ao repertório tradicional, a companhia do Instituto de Investigação de Ópera tradicional de Shaanxi adicionou alguns elementos modernos, que Chen Yang garante não terem desvirtuado o original. “Esta companhia introduziu grandes alterações, inclusivamente, elementos modernos. No entanto, conseguiu manter um espírito bastante tradicional, não foi adulterado. Uma das alterações foi a redução da ópera de onze para sete partes”, diz o dramaturgo.

Multidão e energia

Wang Qing, do Teatro de Ópera de Pequim em Xangai, foi convidada a encenar este espectáculo, que teve estreia em 2007, e desde então já foi levado ao palco mais de uma centena de vezes. “Ao nível, por exemplo, do figurino dos actores, há uma influência moderna, que cruza os estilos do norte e sul do país. Os actores escolhidos são também jovens atraentes”, explica a encenadora sobre as inovações introduzidas pela companhia.
“Mesmo para quem não compreenda o background da ópera, a dança, música e representação reflectem claramente o enredo. A maior parte, são cenas de guerra com muita acção”, revela também Wang Qing, que defende ser este o tipo de ópera que mais profundamente representa a tradição popular dramática nacional. “Se há que ver alguma ópera, deve-se ver esta de Qingqiang, porque de facto é a mais antiga e a mais tradicional”, aconselha.
“A China tem mais de trezentos tipos de ópera chinesa. Em Shaanxi, concentra-se um sexto das óperas, nomeadamente, 57 tipos de ópera. Algumas delas já foram consideradas património intangível nacional, incluindo a ópera de Qingqiang. É muito importante, está na origem de muitas óperas, exercendo influência inclusivamente sobre as óperas de Pequim, Henan, Shandong”, relata Chen Yan, que é também o director da Associação de Teatro da China.
Entre as características principais do estilo dramático está “a variação do tom da voz dos actores. Noutras óperas, é usado um tom mediano, mais ou menos constante. Aqui há grandes variações, que vão desde um tom muito elevado a um muito controlado. Mas é principalmente pelas partes em que o tom é mais elevado que ela se distingue. Tem muita energia”, explica Chen Yan.
A ópera distingue-se também por levar ao palco várias dezenas de actores. Mais de vinte constituem o elenco principal. Somados os figurantes e o coro, “Mulheres General da Família Yang” conta com uma pequena multidão de actores, grande parte deles alunos do Instituto de ópera de Shaanxi.
“Esta companhia, em especial, é constituída por muitos alunos com idades a rondar os vinte anos, que foram treinados durante cerca de sete anos. São muito bons todos. Já actuaram nos Jogos Olímpicos de Pequim e no Festival de Artes de Xangai, onde ganharam um prémio. São reconhecidos já a nível nacional”, revela Chen Yan.

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