Os métodos para alcançar a perfeição
Comunidade budista em festa
Centenas de pessoas vão acorrer sábado aos templos de Macau, onde vão ecoar cânticos e orações. 2 de Maio é dia de aniversário de Buda.
Luciana Leitão
Fala com serenidade do homem que lhe mudou a vida: Buda. Aos 42 anos, Barbara Zeng segue os seus ensinamentos, tentando aplicá-los na vida. E procura, através dos estudos e da prática, chegar, tal como ele, à perfeição. Também Chan Pui Yee, de 40 anos, tenta, através dos livros e do aconselhamento dos mais sábios, as linhas mestras que lhe permitem conduzir a sua vida tendo por fim último alcançar a verdade suprema. Em vésperas de celebração do aniversário do Buda, o PONTO FINAL foi falar com os seguidores desta religião do território.
Foi durante o período da Revolução Cultural que Barbara começou a manifestar um interesse pelo Budismo. Vivia então em Cantão e deslocava-se a casas de amigos, mostrando-se fascinada com os altares da deusa Kun Iam. “Não havia liberdade religiosa e eu não podia dizer que era budista ou que seguia qualquer outra fé”, recorda a actual directora do Centro de Investigação de Gestão Moderna da Universidade Aberta Internacional da Ásia (Macau).
Naquela altura, a jovem Barbara desconhecia os princípios ou a teoria por detrás do Budismo. E nem sequer sonhava em seguir a sua prática. Apenas sabia que gostava da deusa Kun Iam e que “queria a sua protecção”. Dado o período de turbulência histórica em que se encontrava, ninguém podia sequer desconfiar. “Os meus pais não tinham religião – acreditavam apenas em Mao Zedong”, diz, rindo-se nervosamente.
Com o passar dos anos e a morte do antigo presidente Mao Zedong, a China abriu-se ao mundo. E Barbara foi-se mostrando cada vez mais interessada pelo Budismo. Porém, só na década de 90, quando se transferiu para o território, é que começou a estudar e a frequentar os templos. “Foi mais fácil entrar em contacto com a comunidade budista”, declara.
O auto-controlo
Um ano depois de chegar ao território, Barbara Zeng acabou por ingressar numa associação budista, onde celebrou o seu ritual de iniciação.
Hoje em dia, através desta associação, participa em algumas actividades. “Periodicamente visitamos pessoas portadoras de deficiência. Todos os meses organizamos uma refeição de comida vegetariana”, enumera.
Ao longo dos tempos, através da ajuda da associação, da leitura do fundador da Ordem Budista Fo Guang Shan, Ysing Yun, de Taiwan, e da aplicação destas linhas orientadoras à sua própria vida, Barbara foi aprofundando os seus conhecimentos.
No dia-a-dia, além de procurar pôr em prática os ensinamentos de Buda, também reza em casa, no seu pequeno altar. E ainda acaba por impor a si própria algumas restrições, nomeadamente ao nível da alimentação. “Por exemplo, não como carne de vaca nem coração”, diz. Um símbolo do auto-controlo que é necessário para que consiga, em última análise, alcançar a perfeição.
Também a sua filha, de 13 anos, começa a descobrir o Budismo. “Estuda numa escola cristã. Um dia, enquanto a professora contava uma história sobre Cristo, ela interrompeu e disse que era budista”, declara, rindo-se. E Barbara incentiva-a a estudar, de forma a que Buda se possa reflectir nas suas acções.
Contente por verificar que no Continente se vive, hoje em dia, um clima de abertura e liberdade religiosa que não existia durante a sua juventude, Barbara afirma que até a sua mãe já começa a interessar-se pela sua opção religiosa.
Meow Space é um símbolo
Chan Pui Yee, uma das fundadoras da loja de design – que também acolhe gatos abandonados – Meow Space, em Macau, é budista há mais de 20 anos.
Natural do território vizinho, acabou por ser em Hong Kong que começou a estudar e a descobrir mais sobre aquela que agora é a sua religião. Além de, frequentemente, proceder a cânticos religiosos e a orações, Chan Pui Yee procura aplicar na sua vida o espírito do próprio Buda – praticar boas acções e purificar a mente.
Aliás, o próprio Meow Space insere-se nesse mesmo espírito. “Há já um ano e meio que albergamos os gatos que se encontram nas ruas e procuramos um bom dono”, diz de forma muito serena. O seu estabelecimento acaba por reflectir, por isso, alguns dos ensinamentos do próprio Buda. “A compaixão pelos outros – não apenas os seres humanos, mas também os animais – e a noção de carma – se fizeres algo de bom serás recompensado por isso”, esclarece.
Comparando a prática do Budismo em Hong Kong e em Macau, Chan Pui Yee apercebe-se de algumas diferenças. “Os templos do território vizinho estão sempre cheios, enquanto em Macau não se vêem tantas pessoas. Além disso, o nível de Budismo não se encontra tão desenvolvido aqui – lá existem escolas, publicações, pode-se, inclusivamente, estudar na faculdade”, afirma.
Ao observar as pessoas que se deslocam aos templos de Macau, Chan Pui Yee também se apercebe de que “pedem algo para si”. Não que seja mau – contrapõe -, mas é “um estilo diferente”. Por sua vez, quando reza, esta designer “fá-lo para todos os seres”.
Em Macau, Chan Pui Yee não faz parte de qualquer associação budista nem segue as orientações de um mestre. Tal como Barbara Zen, também procura aprender, via Internet ou através dos livros publicados, com o fundador da Ordem Budista Fo Guang Shan, Ysing Yun, de Taiwan.
O aniversário de Buda
Segundo o professor de História da Universidade de Macau, Jorge Cavalheiro, o dia 2 de Maio corresponde a uma data criada – em analogia com o que sucede em relação ao 25 de Dezembro e ao nascimento de Jesus Cristo – para assinalar o nascimento do príncipe Siddartha (ver caixa). Por ocasião desta data, as pessoas deslocam-se aos templos para “proceder a oferendas de comida e queimar incenso e papéis”.
Barbara será uma destas pessoas. Depois de amanhã, irá ao templo para, em comunhão com os outros, também “limpar” Buda. “Lavamos o seu corpo com água, de forma a que nós próprios nos tornemos mais puros”, afirma.
Também Chan Pui Yee irá participar das “cerimónias de limpeza” – no fundo, acaba por corresponder a “uma forma de se purificar, evitando que pense demasiado”.
Os tropeços na História
Tendo surgido na Índia, no século VI a.C., a introdução posterior do Budismo na China foi tudo menos fácil. Logo de início, num período que teve início no século I, sofreu alguma resistência por parte dos letrados que seguiam os preceitos de Confúcio, acabando por ser “adoptado” apenas durante a dinastia Tang. Em Macau, por seu turno, o primeiro templo budismo só surgiu no século XIII.
De acordo com o professor de História da Universidade de Macau, Jorge Cavalheiro, foram precisos vários séculos até que, durante a dinastia Tang (618-907), se descobrisse uma forma mais “adaptada” à China, conciliando o Budismo com o Taoísmo e o Confucionismo.
Mais tarde, durante a dinastia Song (970-1265), o Budismo sofreu também algumas dificuldades, e só depois “passou a estar integrado no pensamento, vida e identidade cultural chinesa”. Aliás, na realidade, hoje o que se assiste no Continente, Macau e Hong Kong é “um sincretismo religioso, em que se combina o culto aos antepassados, o Taoísmo, Animismo, Confucionismo e Budismo”, devendo falar-se, por isso, numa religião popular da China.
No que toca à História mais recente, há que realçar que também durante o período da Revolução Cultural, os budistas – bem como todos os religiosos – sofreram algumas perseguições. “Fecharam templos e confiscaram os seus bens”, afirma ainda o historiador, acrescentando que “foi um rude golpe para a vida religiosa”. Com a ascensão ao poder do presidente Deng Xiaoping, deu-se a abertura da China. E o país tornou-se mais “tolerante”.
A disseminação em Macau
A introdução do Budismo em Macau surgiu mais tarde do que no Continente. “Construiu-se o primeiro templo de Kun Iam, no século XIII, em plena dinastia Ming. O motivo? “Uma comunidade que estava a ser perseguida no Continente acabou por se refugiar no território”, explica.
Tanto no Continente, como em Macau e Hong Kong, existe um sincretismo religioso, não se podendo falar, por exemplo, “de um templo exclusivamente budista”. Além disso, todos “os ritos e as cerimónias são moldados pela moral confucionista”, diz ainda Jorge Cavalheiro.
Analisando o panorama do Budismo na República Popular da China e nos países do Sudeste Asiático, há que tecer algumas considerações. Por exemplo, “na China, no Tibete, Coreia, Japão, Vietname”, segue-se a chamada corrente Mahayana. Pelo contrário, no Sri Lanka, Tailândia, Laos, Cambodja e Birmânia é mais comum a Teravada (VER CAIXA) – que também se designa de “Budismo ortodoxo, por estar mais aproximado das ideias de Buda”.
A origem
O Budismo nasceu na Índia, no séc. VI a.C., com um rico príncipe chamado Siddharta. Aos 29 anos, teve quatro visões que o transformaram. As três primeiras – o sofrimento devido ao envelhecimento, doenças e morte — mostraram-lhe a condição a que está votado o homem. A quarta – um eremita – revelou-lhe o meio para alcançar a serenidade.
Acabou por abandonar a sua família e riqueza em busca da verdade. Aos 35 anos, sentiu uma extraordinária sabedoria – a que se costuma chamar de iluminação. Passou a ser designado por Buda Shakyamuni.
Glossário essencial*
Auto-natureza – O homem, no início, possui uma índole perfeita, que é, posteriormente, bloqueada pela inveja, ódio e ilusão. É o equivalente à natureza de Buda.
Bodhisattva – Alguém que jurou obter a suprema iluminação para si e para todos os seres.
Buda – Alguém que alcançou a perfeição, em termos de realização pessoal e que ajuda aos outros a que a atinjam.
Carma – As consequências resultam de pensamentos intencionais, palavras e comportamentos.
Mahayana – Uma das duas principais correntes do Budismo. É o caminho do Bodhisattva para ajudar todos os seres conscientes a alcançarem a iluminação.
Natureza do Buda – A perfeição.
Preceitos – São as regras estabelecidas por Buda para guiar os seus alunos e evitar que cometam acções erróneas ou que pensem e digam algo menos bom.
Seis patamares de reencarnação – Os três cimeiros são os céus, asuras (semi-deuses em sânscrito) e homens. Os três últimos são os animais, espíritos esfomeados e os infernos.
Sutra – Os ensinamentos do Buda que acabaram por ser escritos e compilados pelos seus estudantes.
Teravada – Uma das duas principais correntes do Budismo. É o caminho que impõe a obediência estrita aos preceitos. O objectivo é obter realização para si próprio.
* Termos do livro “The Core of Oriental Wisdom”, da autoria do budista Edward Woo
