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“Um cargo político formal não me faria feliz”

April 28, 2009

Carlos Marreiros defende participação activa da comunidade macaense nas legislativas

Considera que é mais útil no domínio das ideias e da cultura do que na esfera política, mas mostra disponibilidade para ajudar na busca de consensos para uma futura lista candidata às legislativas de 20 de Setembro. Em entrevista ao PONTO FINAL, Carlos Marreiros – o homem que gosta cada vez mais de desenhar -, faz uma análise sobre as duas eleições deste ano e o estado das obras públicas. E deixa uma definição abrangente do que é ser macaense.

Isabel Castro

- Tem-se vindo a falar da possibilidade da comunidade macaense estar representada nas legislativas deste ano, com uma lista semelhante às de 2001 e 2005, mas ainda não há nenhum movimento visível. Julga que vai haver uma lista candidata?
Carlos Marreiros – Sinceramente acho que a comunidade portuguesa vai estar representada nas próximas eleições. Ao contrário do que parece, desta vez está-se a falar muito antes do que era normal. As coisas aconteciam às vezes com uma antecedência de dois, três meses. Neste momento, há mais de meio ano que já se ouve falar dessa hipótese. Julgo que vai haver uma participação.
- Tem uma posição crítica em relação às chamadas listas étnicas. Uma lista a aparecer nos moldes da “Por Macau” e da “Macau Sempre” será uma lista étnica?
C.M. – Não. O que digo é que cada vez mais se torna importante apostarmos numa lista ética em vez de étnica. Julgo que a comunidade macaense, como é aqui referido, engloba os radicados, os chineses e eventualmente outras etnias que, connosco, convivem há tanto tempo e sentem Macau como a sua terra, para ela querem trabalhar. Daí que me parece muito mais importante trazer estas pessoas também ao convívio político. É importante que haja uma comissão eleitoral que claramente traga esta mensagem do que é ser macaense. E o que é ser macaense? São os luso-descendentes no sentido mais patrimonial e antigo do termo, mas também os portugueses aqui radicados e chineses que têm connosco pontos em comum. Daí que, mais importante do que discutir a etnicidade, é discutir a ética deste grupo, a verdadeira vontade de servir Macau.
- Numa entrevista recente, Miguel Senna Fernandes referia ser favorável a que a lista fosse liderada por um jovem. Entende que todas as fórmulas experimentadas não funcionaram, pelo que há que apostar na renovação. Concorda?
C.M. – Absolutamente. Tenho vindo a defender isto há bastante tempo. Acho que temos de apresentar uma lista extremamente jovem. Bem sei que é difícil, pela aritmética das eleições, que a nossa comunidade tenha capacidade para eleger alguém de forma expressiva, porquanto vamos precisar de mais de seis mil votos. Se a comunidade historicamente sempre apareceu, agora não é altura de deixar de o fazer, mesmo que as hipóteses de ganhar sejam curtas. O primeira questão que se coloca é a seguinte: haverá jovens neste momento com algum trabalho feito para que consigam um apoio mais alargado de todos os sectores da comunidade? A segunda questão: há jovens com valor e em potência, mas se a comunidade não ajudar à sua eleição, será ou não estarmos a sacrificar este cabeça de lista, um jovem como cordeiro sacrificial? É outra questão que se deve colocar. Contudo, pela prática de Macau, e mesmo havendo a necessidade de correr o risco do sacrifício, defendo há muitos anos e vou continuar a insistir nesta hipótese, tenha ela ou não consenso entre a comunidade. Não chega dizer que não temos pessoas para a continuidade, é muito importante que estas pessoas apareçam e que nós as ajudemos, pelo menos, a exporem-se publicamente.
- Na sequência das eleições de 2005, Pereira Coutinho fez críticas à “Por Macau”, acusando-a de conquistar votos que poderiam bastar para que elegesse o número dois da sua lista. Esta crítica tem sentido?
C. M. – O deputado Pereira Coutinho tem feito um bom trabalho, é interventivo. Ao contrário do que era habitual em listas de candidatura representativas da comunidade portuguesa em si ou aliada com outras forças, raramente havia trabalho de seguimento, de acompanhamento, durante todo o ciclo até às próximas eleições. Ele fê-lo de forma actuante e, independentemente de se concordar ou não com algumas posições que tome, tem estado sempre a tentar resolver os problemas. Pessoalmente tenho simpatia por ele. Isto é uma coisa. Outra coisa é representar a comunidade portuguesa de forma mais abrangente.
- Miguel Senna Fernandes disse que Pereira Coutinho não era o representante da comunidade portuguesa, o que levou a ATFPM a surgir com um abaixo-assinado no sentido de contestar esta afirmação.

C.M. – Por mérito próprio, Pereira Coutinho também é representante da comunidade macaense, mas não é só ele o representante da comunidade. Como toda a gente sabe, a base de apoio dele é bastante sindical e, por isso, há pessoas que não se revêem nele. Nesta fase ainda não é fácil gerar este consenso. Contudo, não enjeito que se trabalhe neste sentido, porque realmente Pereira Coutinho é um ganhador, tem uma base de apoio que qualquer outra estrutura ligada à comunidade macaense não tem, em termos de número de votos, de organização e de logística.
- Mas neste momento a possibilidade de uma união de forças parece afastada.
C.M. – Pelo debate público no Clube Militar, a que assisti e em que também participei, há umas semanas, Pereira Coutinho disse claramente que o número dois da sua lista deveria ser por escolha dele ou da total confiança política dele. Embora perceba que, no fundo, o que ele queria dizer poderia não ser totalmente isto, a assunção pública desta posição implica que qualquer personalidade local que queira avançar com uma proposta para uma lista de consenso, e conversar com ele tem, à partida, um handicap: condições pré-estabelecidas para qualquer negociação, o que em si, poderá ser um factor inibidor para uma lista de consenso. Parece-me que, neste aspecto, o meu amigo Pereira Coutinho foi um bocado inábil. Isto inibe naturalmente qualquer possibilidade de maior abertura na negociação, porquanto há pré-requisitos estabelecidos. Agora, como vai a comunidade encontrar alguém ou várias pessoas? É um processo complicado mas que tem de ser feito. Julgo que as pessoas envolvidas no processo têm de encontrar rapidamente uma solução para esta lista de candidatura. Eu estou disponível a ajudar, como tenho feito desde há muitos anos, mas a minha colaboração é para gerar consensos e tentar ajudar a encontrar a melhor solução, porque acredito que é chegada a altura de aparecer gente jovem. Defendo isto desde 1996: na altura fui cabeça de lista pela Macau Sempre, não tinha ainda 40 anos. Hoje já estou veterano de mais, mas estou disposto a colaborar. Defendo que, mesmo que os jovens ainda não sejam muito conhecidos, têm de aparecer. Macau é um território muito exíguo, as coisas acontecem a um ritmo vertiginoso. É altura de expor estes jovens ao estágio político. E toda a gente sabe que, na prática, em Macau, quando as pessoas não são confrontadas, não estão sob pressão, demoram a aparecer. É altura de renovação. Acredito que se as pessoas forem bem e consensualmente escolhidas – e macaenses são, para além dos luso descendentes, todos aqueles que no passado contribuíram para o bem colectivo de Macau e nela acreditaram, e que nela continuem a acreditar, e queiram continuar a ser parte activa na construção do nosso porvir colectivo, na RAEM sob o princípio “um país, dois sistemas” – teremos uma boa prestação, muito melhor do que das últimas duas vezes. Por isso, mais do que uma candidatura étnica, defendo uma candidatura ética, ética de bem servir Macau, com princípios, com ideias, com competência, com modernidade e inovação, e para isso, precisamos de juventude competente e renovadora.
- Este ano há também eleições para o Chefe do Executivo. Ainda não há candidato assumido, não obstante a proximidade do acto eleitoral. Há quem pense que estamos perante a verdadeira transferência de administração.

C.M. – Realmente, estamos já muito próximos do acontecimento mas os nomes não foram assumidamente publicitados. Julgo que tem a ver com vários factores. Quando foi Edmund Ho, pelo seu carisma e passado político, não havia grandes dúvidas quanto à possibilidade de vir a liderar, porque era amplamente apoiado pela população de Macau. Neste momento, dez anos depois do estabelecimento da RAEM, quer a segurança futura de que a governação seja bem feita, quer também porque ainda não há um nome absolutamente universalista perante a população, têm feito tardar o processo. Nos nomes que se falam há claramente dois candidatos fortes. Surgirão os dois ou um deles não aparecerá à espera de melhor oportunidade?
- Sente que o facto de o cenário ainda não estar traçado causa incertezas?
C.M. – Já ouvi pessoas com reacções quer num sentido, quer noutro. Algumas pessoas estão um pouco ansiosas com o facto de o processo estar a demorar; outras acham que é um circunstancialismo local. Não sinto qualquer ânsia em especial – se tivesse que a sentir, já a teria sentido antes. Estamos já bastante próximos do acontecimento, julgo que muito rapidamente os nomes saltarão para a praça pública. As dúvidas serão esclarecidas.
- Este Governo ficou marcado pelo caso Ao Man Long. Muita gente se tem vindo a queixar que, desde que o escândalo rebentou, a Direcção dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes tem uma grande dificuldade em dar andamento aos processos. Diz-se que tudo parou. Sentiu este efeito?
C.M. – Sim. É verdade que parou. Desde que o ex-secretário Ao Man Long foi detido a 6 de Dezembro de 2006 que as coisas foram parando, o que é muito mau, quer para a economia, quer para a imagem de Macau no exterior. Acredito que há muitos projectos polémicos, mas há outros que nada têm de polémico, são promovidos por pequenas e médias empresas de Macau, com muitos postos de trabalho. As coisas ficaram paradas, as pessoas não estão contentes, porque o sector da construção civil é importante. Isto afectou directamente muitas pequenas empresas, daí haver críticas do sector da construção civil, mas também de outros sectores. É um facto que o ex-secretário prejudicou bastante Macau, a imagem e confiança neste Governo, mas Macau não é só composto por construtores, investidores, responsáveis governamentais, empresários e até projectistas desonestos. Há muita gente honesta em Macau, que ganha a sua vida honestamente, e que ficou prejudicada.
- Quando se pensa nas obras que constam dos dois processos de Ao Man Long, chega-se à conclusão de que todos os grandes projectos aprovados entre 2002 e 2006 estiveram envolvidos neste esquema de corrupção. Sente que todo o sector ligado ao sector, do arquitecto ao engenheiro passando pelos empreiteiros, saiu prejudicado?
C.M – Prejudicou. O facto de um alto responsável ter entrado em esquemas de corrupção de semelhante envergadura prejudicou e deu uma péssima imagem de Macau. Já não me lembrava de Macau ser considerada assim. Nos anos 80, liricamente falando, Macau era uma tira de areia infestada por casinos, agiotas e prostitutas. Não era verdade. Macau tem gente séria a todos os níveis. Como cidade, apesar das contradições, é encantadora e as pessoas sérias e honestas em Macau são muitíssimas mais do que alguns espíritos corruptos que depois dão esta má imagem. Todo o processo criou uma imagem bastante negativa. Nesta fase percebo que o novo secretário tenha de ter muito cuidado.
- A presidente da Assembleia criticou Lao Si Io por ter medo de falar e de receber as pessoas ligadas à sua tutela. Lao Si Io tem perfil para assumir uma pasta desta dimensão em Macau?
C.M. – Este processo é muito excepcional. No sector, tem sido criticado por alguma imobilidade, mas penso que não é numa situação muito excepcional que se pode tirar qualquer conclusão. Confirmo que, realmente, no sector está tudo muito parado. Há equipas de juristas e projectistas em task force para resolver os grandes casos, mas e os pequenos casos, porque é que está tudo parado? Há os edifícios de 20 metros e meio, que têm proveniência em pequenos construtores que dão de comer a muitas famílias, não têm nada a ver com este mega processo e que esperam meses para uma licença de obra. Isto não pode ser.
- Diz que é um activista e que não está interessado em estar activamente na política. É uma hipótese completamente posta de parte?
C.M. – Completamente.
- Concorda com Miguel Senna Fernandes quando este diz que a actividade cultural em português é, neste momento, um acto político?
C.M. – Concordo. Era como a velha questão dos anos 70: quem bebia Coca-Cola ou vodka estava a fazer a assunção política de qualquer coisa. A seguir é que os havanos cubanos passaram a ser fumados por tantos capitalistas da 5ª Avenida que deixou de ser uma atitude política. Quando digo que não estou disponível para a actividade política activa é no sentido de servir formalmente no hemiciclo, por exemplo, ou como director de serviço. Nunca quis uma carreira política, porque tal implica ser carreirista e ter uma agenda, obrigar-me-ia a certas concessões que não disposto a fazer, porque sou ferozmente independente. E também porque acredito piamente que cada vez mais o nosso contributo cívico é muito importante.
- A sua presença no Albergue de Santa Casa e o projecto de desenvolvimento das indústrias culturais e criativas vem ao encontro dessa ideia?
C.M. – Exactamente. É importante que se dêem oportunidades aos jovens criadores, não só ao nível artístico, mas aos empresários que não querem ser só construtores nem donos de grandes empresas, que querem actuar nesta área das chamadas novas profissões e ter um estilo de vida que os faça felizes à sua maneira. Através do Albergue, queremos criar esta consciencialização cívica de que o património não são só o edifícios com 100 ou 400 anos. O modernismo que tem só 40 ou 50 anos, ou a arquitectura que se faz hoje – sendo ela representativa de uma maneira de estar e tendo qualidade -, em muito pouco tempo é património. Esta consciência cívica é absolutamente importante.
- O Albergue é uma estrutura pequena em termos de dimensão e de estrutura administrativa. Está aberto a toda a gente com ideias nestas áreas? É uma casa com a porta aberta?
C.M. – É uma casa com a porta completamente aberta e que quer atravessar todas as comunidades. Naturalmente que a comunidade de língua portuguesa, a cultura macaense, está mais próxima de mim, mas não podemos incidir a nossa preocupação só nesta comunidade. Obviamente que é importante, mas queremos atravessar todas as comunidades de Macau. Por exemplo, no dia seis vamos inaugurar a exposição sobre Carlos d’Assumpção. É o princípio de uma série que englobará figuras públicas, artistas, escritores, arquitectos, etc., de várias comunidades, e que a memória recente, dos últimos cinquenta anos, ainda não fixou. Há figuras que é muito importante divulgar e que a sua memória seja fixada em três línguas. Dá muito trabalho e custa mais dinheiro, mas fazemos questão de editar em chinês, português e inglês. Esta é a minha contribuição cívica. Acredito que muitas pessoas – e incluo-me nelas – podem ser muito mais úteis a pensar, a trabalhar no património, na cultura, nas indústrias criativas e na formação de consciência e de massa cinzenta. O problema de Macau é que nos conhecemos todos, temos muitas oportunidades e portas abertas, e depois esquecemo-nos do essencial. Na realidade, nunca estive na política, embora se pense que estive. Fui duas vezes candidato à Assembleia, trabalhei em várias comissões eleitorais, fui presidente do Instituto Cultural.
- Mas nunca se sentiu político?

C.M. – Não. Nunca me senti político. As pessoas têm de ter ambição para isso. Eu não tenho. Gosto cada vez mais de desenhar. O processo é o contrário: as pessoas começam como técnicos, como criativos, e depois querem gerir. Eu cada vez gosto mais de tocar no barro, tocar no papel. Julgo que a minha prestação pode ser muito mais útil ao nível da consciência cívica na promoção da qualidade a todos os níveis, do que sendo um legislador. Temos de gostar do que fazemos. Gosto de contribuir a nível das indústrias criativas, da cultura, do património, da escrita, da pedagogia, das ideias, da internacionalização de Macau. Um cargo político formal não me faria feliz.

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